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O RAPAZ DAS ILHAS

10
Set18

Carta aberta aos novos universitários

AL RIGHTS RESERVED

 

Sinto que hoje vos devo escrever sobre este tema tão interessante que é o percurso universitário. Este blog foi criado especialmente com o intuito de poder ajudar – a distrair, a rir, a chorar, a pensar, enfim… – e, por isso, vamos ao que importa.

 

Antes de mais, aos novos alunos de ensino superior que possam estar a ler isto os meus parabéns pela entrada, este textito é especialmente para vocês.

 

Acredito que desde que souberam o resultado da vossa candidatura tenham ficado com uma sensação estranha, principalmente se vão ter de sair da vossa casa, da vossa terra para irem estudar para outro sítio. Lembro-me perfeitamente do dia em que saiu a minha colocação, a malta ficou feliz, depois triste, depois feliz e quando me fui embora profundamente triste. É muito esquisita, a sensação, mas é mesmo assim. Confesso que não sabia se estava feliz ou triste. Sair dos Açores para ir para Lisboa estudar era um objetivo bem definido – tanto que todas as minhas opções foram lá –, no entanto ao saber o resultado e cair a ficha de que ia partir na manhã seguinte perturbava-me pelo facto de deixar para trás a minha namorada, a minha terra, os amigos, o carro, a minha rotina, basicamente o meu espaço e até o meu tempo, porque sempre fui ativo e fiz mil e uma coisas e era feliz onde vivia. Até a rádio teve de passar a ser feita à distância, o que não tem, nem por sombras, a mesma piada. Mas nunca disse a ninguém que havia um misto de sentimentos, mantive firme a minha convicção de que era ir que eu realmente queria. E mesmo se a incerteza era grande levei na mala, acima de tudo o que é palpável, a vontade de crescer e de aprender. De sentir o medo e a solidão para valorizar a presença dos outros; de ouvir os melhores profissionais falarem das áreas que me interessam; de conhecer novas realidades e pensamentos; de ir para um “mundo” maior, mais desconfortável, diferente. E fui.

 

Encontrar um T0 a um preço suportável – justo nem vou mencionar – foi um pesadelo, a primeira vez que pus os pés na universidade detestei tudo, esperar 3 horas na fila para contratar um distribuir de energia era, para mim, inacreditável. Não vos vou mentir, aliás, vou confessar-vos o que até hoje ainda ninguém sabia, os meus primeiros tempos em Lisboa foram emocionalmente terríveis. Só queria voltar. As ruas eram escuras, as pessoas antipáticas e, por vezes, nada civilizadas, alguns indivíduos assustavam-me, o ambiente não era de todo o meu. Mas persisti. Tinha deixado um trabalho para ir estudar e não podia dar o braço a torcer a toda a gente, nem sequer a mim próprio, eu não podia nem queria ser um falhado. “Dos fracos não reza a história”, é preciso persistir.  

 

Uns meses depois de terem começado as aulas – e já mais estabilizado da cabeça e a começar a gostar do meio e do ambiente –, tive uma péssima nova vizinha, surgiram problemas no apartamento e o senhorio pouco interesse demonstrou, e apesar dos colegas serem incríveis, percebi que o curso que estava a tirar não era para mim. Tudo o que faltava, não é? Porra!

 

Mantive-me no curso. A vizinha acabou por ser expulsa – e garanto que sem uma única queixa minha; os problemas do apartamento resolveram-se; o ano letivo acabou. Não hesitei em pedir a mudança de curso. Fui para Antropologia. Para os meus amigos e família, mesmo se não me disseram, percebi que viram a minha escolha como inconsciente e descabida, mas ao fim de um ano a viver sozinho e com a “porrada” que tinha apanhado não quis saber, só queria ir atrás daquilo que gostava e uma licenciatura em Administração Pública não era de certeza.

 

Em Setembro soube que o meu pedido de mudança de curso tinha sido aceite. Fui cheio de motivação para Lisboa, no regresso das férias grandes nos Açores. Não vos vou contar muitos pormenores, passado já um ano, posso dizer-vos que acertei. Hoje adoro estar em Lisboa, estou a conciliar a formação em Antropologia com várias formações em comunicação social – ser jornalista, com base em Antropologia, é mesmo o que quero –, tenho bons amigos e sinto que a grande cidade é tanto a minha casa como a minha pequena Praia da Vitória, na ilha Terceira. Já tive o privilégio de conhecer alguns dos melhores antropólogos do país e da Europa e de os ter como professores, já fui formado por jornalistas e locutores do melhor – sim, daqueles mesmo famosos – e, resumindo, encontrei o meu caminho – não querendo parecer um padre a dar o sermão, atenção.

 

Não quero com isto dizer-vos que ao início tudo vai ser mau e que vão acabar por ter o mesmo percurso conturbado que eu tive. Quero dizer-vos que façam aquilo que realmente gostam, que não se mantenham num possível curso que possam não gostar só pelo que os outros pensam ou dizem, lembrem-se, um dia que acabem o curso são vocês a terem de trabalhar no que se especializarem e não os outros, e temos de fazer aquilo que realmente nos faz felizes, caso contrário andamos aqui a queimar tempo e vida. Quero dizer-vos também que por mais difícil que seja a vossa vida a partir de agora acreditem sempre que “o melhor está por vir”, se tudo ao início for estranho e duro, se por acaso vos passar pela cabeça desistir, seja por que motivo for, não o façam, esperem, mudem, tentem, mas nunca desistam. Até que tudo vá ao lugar leva o seu tempo e como se diz na minha terra “todo o bicho ao nascer é feio”, o mesmo acontece com as grandes mudanças da nossa vida.

 

Cada pessoa é única e tem o seu tempo. Se virem o vosso “vizinho” muito feliz com o seu quintal e não estiverem satisfeitos com o vosso foquem-se nele, acreditem que é de vós que depende o sucesso dele. Quero com esta frase dizer-vos que se em alguma altura estiverem mal e acharem que devem continuar porque os outros estão bem, não o façam, é um erro. Façam as mudanças necessárias para ficarem bem. Porque por muito que se identifiquem com colegas que estejam a gostar do curso, os outros não são vocês. Se pensarem, “mas os meus pais vão dizer que não sei o quero”, lembrem-se que todos erramos e merecemos uma nova oportunidade. Ou então, se por acaso vos passar pela cabeça “andei a perder um ano”, acreditem que alguma coisa ganharam com isso. Cada um tem o seu tempo, trocar de curso ou levar mais um ano a fazê-lo não faz de ninguém uma má pessoa ou mau profissional, nem todos têm de ter percursos exatamente iguais, têm, isso sim, de saber tirar partido de tudo, até do menos bom.

 

As praxes, esse grande dilema. É bem simples, experimentem, se gostarem façam, se não gostarem têm toda a liberdade de não fazer. Felizmente todas as faculdades são democráticas e desde que haja respeito entre todos não é isso que vos pode fazer mais ou menos alunos, nem mais ou menos sociáveis. Vão pelo caminho que for mais inspirador, é simples.

 

Aproveitem tudo e todos. Aprendam com os melhores e com os piores exemplos. Explorem, conheçam, perguntem, vivam. Não se limitem a ir apenas às aulas, tentem “beber sumo” de tudo o que estiver à vossa volta, sejam eventos da faculdade ou outros que em têm interesse. Não sejam daqueles que, a regressarem à terra um dia, voltam ainda piores do que foram. Disse-me um amigo poucos dias antes da minha partida para Lisboa, há dois anos, “aproveita Lisboa ao máximo e ganha mundividência”, é o que mais tenho feito e aconselho-vos o mesmo. Cresçam, acima de tudo, como pessoas ou, então, nunca serão bons profissionais. Vou ao extremo, tentem mesmo ser os melhores, caraças!

 

Boas aulas, bom primeiro dia do resto da TUA vida! E, não se esqueçam: nada mais importa do que serem verdadeiros com vós próprios e…felizes!  

 

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Publicado por Rodrigo Pereira em Domingo, 27 de Maio de 2018

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