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O RAPAZ DAS ILHAS

07
Jan18

Fui aos “Rochas” cortar o cabelo

DIREITOS RESERVADOS

 

Nem todas as lojas são só isso, há espaços que nos dizem mais do que os próprios funcionários ou proprietários pensam. É o caso dos “Rochas”, situados na Rua de Jesus, em plena cidade da Praia da Vitória – legalmente, chama-se “Barbearia Rocha”, mas na terra ninguém trata este espaço por esse nome. É uma simples barbearia, negócio de família, com 52 anos. Até aqui nada fora do normal, mas para mim é bem mais que isso.

 

Na minha infância era habitual vir mensalmente aos “Rochas” com o meu pai ou avô cortar o cabelo. Quando vinha com o meu avô ambos cortávamos em pente 2 – hoje nem que me pagassem para cortar tão curto – e é curioso que atualmente ainda é nesta barbearia praiense e sempre o mesmo corte que o senhor Dutra faz e diz mesmo que não dá confiança a outros – se tem que sair da ilha por algum tempo passa lá primeiro.

 

Neste espaço falavam-se dos assuntos da terra. Da política local, ou até mesmo de fulano que tinha falecido ou beltrano que tinha falido. Os cerca de 20 minutos em que esperava pela minha vez nunca eram secantes, gostava de ouvir os mais velhos falarem entusiasmados da nossa terra, gostava de ver os homens grandes a fazer a barba e, por vezes, até sonhava em ser barbeiro - ver os clientes entrar, tratar-lhes do cabelo e da barba enquanto daríamos dois dedos de conversa sobre qualquer coisa “nossa” –, mas foi só um de mais de uma centena de sonhos. Somos o resultado das coisas que fazemos e dos sítios por onde andamos e não tenho dúvida que o gosto pela minha ilha e gente em muito tenha sido alimentado nestas idas ao barbeiro.

 

No penúltimo dia de férias de Natal na Terceira tive saudades desse tempo – não foi bem saudades, mas nostalgia –, em que era pequeno e ia com o meu avô a todo o lado, e em especial das idas aos “Rochas” e fui lá, pura e simplesmente por isso. Quando entrei, um tipo da minha idade, com a farda do trabalho, cortava cabelo e barba e um velhote ficava-se só pelo cabelo. Li o Jornal da Praia, depois o Diário Insular e chegou à minha vez. Meti conversa sobre o derby Benfica/Sporting, para manter a tradição de ter um bom tema durante o corte e depois falamos da barbearia e do que acima já escrevi, pedi informações para escrever o meu habitual artigo no primeiro jornal que referi (JP) e num abrir e fechar de olhos estava pronto.

 

Há diferenças notórias nos “Rochas” da minha infância para agora. Desde logo a diferença no número de clientes e mesmo de pessoas a circular na Rua de Jesus – a Praia atravessa uma grande crise devido à redução de investimento dos EUA na Base das Lajes e a outros problemas que ninguém sabe como resolver, e os ilhéus decidiram trocar o comércio tradicional da ilha pelos grandes centros comerciais de Lisboa –, lembro-me de serem quatro barbeiros e hoje são só dois – um abriu uma barbearia sozinho, o outro, se não estou em erro, faleceu –, e por muito que não queira o tempo passa e as sensações que temos ao visitar um sítio de infância não são exatamente iguais. Mas tirando isso, tudo continua como dantes: o senhor Hernâni conversa e cantarola enquanto corta cabelos, os mais velhotes mantêm as habituais conversas e o canal de preferência continua a ser a RTP 1.

 

Ah! Foi pente 4 atrás e nos lados, em cima foi à tesoura e deixei uma pequena poupa. O habitual corte de pelo menos há uns 10 anos.

 

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2 dedos de conversa

PATRÍCIA MATOS em 2 DEDOS DE CONVERSA

Publicado por Rodrigo Pereira em Domingo, 15 de Abril de 2018

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